bloco de notas
naquela fase dos murmúrios e balbucios da criança, segundo fabio morábito (segundo os linguistas, diz ele), a criança é capaz de emitir os sons de todas as línguas, “capacidade suprema que ela perde para sempre assim que começa a falar”. como contrapartida para nos fornecer a linguagem, prossegue, “a língua materna suprime aqueles sons que lhe são estranhos, como se na criança fosse travada uma batalha entre todos os idiomas, e aquele que se sagra vencedor decidisse imediatamente abolir o vestígio dos outros”.
li o texto, “a poesia e o rosto”, na semana em que faço a chamada “adaptação” do lírio na escola. não tem sido fácil para mim. sou apegado ao pequeno inventa línguas e seus sons. morábito sugere: as oficinas de poesia deveriam retomar os barulhos sem fronteiras destes começos da vida. bem antes do autor, vale lembrar, dadaístas com suas onomatopeias nonsense colocavam em prática a língua em todas as línguas (a quem defenda que “dada” é uma referência aos experimentos guturais das pequenas e dos pequenos).
o livro do morábito é bom demais. o ensaio ao qual me refiro não foi o que mais me tocou, mas diante de um portão com grades altas para confinar seres miúdos me lembrei dele. e quase tudo que leio vem parar aqui neste endereço. vocês já conhecem. boa parte dos textos desta coluna são sobre paternidade. e são, sobretudo, para o lírio. “narrar o mundo de que uma criança se esquecerá - tornamo-nos correspondentes de nossos filhos é um desafio enorme”, escreveu alejandro zambra em seu belíssimo “literatura infantil”.
pois bem, esse é meu carnaval (consegui colocar a palavra no texto!), desfilar letra por letra aqui no meu tradicional bloco de notas, memórias para um futuro leitor.



viva o pequeno inventa línguas, abraço )
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